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02/09/2011 - 04h01

China se beneficia com enfraquecimento da indústria solar norte-americana

Keith Bradsher
Em Hong Kong (China)

A falência de três empresas de energia solar americanas no mês passado, incluindo a da Solyndra da Califórnia na quarta-feira (31), deixou a indústria da China com uma posição dominante de vendas –quase três quintos da capacidade mundial de produção – e custos cada vez menores.

Algumas empresas de energia solar nos Estados Unidos, Japão e Europa ainda têm uma vantagem tecnológica sobre as concorrentes chinesas, mas não a vantagem de custo, segundo analistas do setor.

Empréstimos a taxas muito baixas junto aos bancos estatais em Pequim, terrenos baratos ou gratuitos por parte de prefeituras e governos provinciais por toda a China, economias imensas de escala e outras vantagens de custo transformaram a China de uma participante menor no setor de energia solar, há apenas poucos anos, a principal produtora de uma fonte de eletricidade cada vez mais competitiva.

“As empresas de topo chinesas são uma espécie de referencial agora”, disse Shayle Kann, diretor administrativo de estudos de energia solar da GTM Research, uma empresa de análise do mercado de energia renovável, com sede em Boston. O preço dos equipamentos de energia solar é determinado pela indústria chinesa, ele disse, “e todos os demais cobram um ágio ou oferecem um desconto em relação a ela”.

Além da Solyndra, as outras duas fabricantes americanas que pediram falência em agosto foram a Evergreen Solar, de Massachusetts, e a SpectraWatt, uma empresa de Nova York. Outra empresa, a BP Solar, suspendeu a manufatura em seu complexo em Frederick, Maryland, no primeiro semestre.

Esses pedidos de concordata ou fechamentos representam quase um quinto da capacidade de manufatura de painéis solares nos Estados Unidos, segundo a GTM Research.

A Solyndra e a Evergreen, em particular, sofreram devido à sua tentativa de exploração de tecnologias incomuns, cuja competitividade dependia de seu uso menor de polissilício, o principal material dos painéis solares. Isso se tornou menos importante por causa da queda dos preços do polissilício em mais de 80% nos últimos três anos, à medida que a produção passou a acompanhar a demanda.

Os analistas dizem que duas empresas americanas permanecem fortes. Uma é a First Solar, a maior fabricante americana, que usa uma tecnologia diferente, mas sua maior fábrica fica na Malásia. A outra, a SunPower, é muito menor, mas é a líder do setor em eficiência de conversão de luz solar em eletricidade, de modo que pode cobrar mais caro do que os painéis chineses.

Mas com Pequim apoiando fortemente sua indústria, as empresas chinesas estão ganhando cada vez mais espaço.

“Não há dúvida de que as empresas de energia renovável nos Estados Unidos sentem a pressão da China”, disse David B. Sandalow, o secretário-assistente para políticas e assuntos internacionais do Departamento de Energia americano. “Muitas delas dizem que é o capital barato, e não a mão-de-obra barata, que dá às empresas chinesas a maior vantagem competitiva.”

Todas as três maiores empresas de energia solar da China – Suntech Power, Yingli Green Energy e Trina Solar – anunciaram nas últimas duas semanas que as vendas no segundo trimestre aumentaram de 33% a 63% em comparação ao ano anterior.

Yingli e Trina também foram lucrativas no trimestre. A Suntech postou uma perda, em grande parte porque rompeu um antigo acordo de compra de wafers solares – componentes críticos no processo de manufatura – de uma afiliada em Cingapura da MEMC Electronic Materials, do Missouri. A Suntech planeja fabrica mais wafers ela mesma.

As ações de empresas de energia solar pequenas e grandes da China apresentaram alta nas últimas duas semanas nas bolsas de valores de Nova York e Hong Kong, à medida que os investidores aprovavam seus fortes resultados do trimestre e a perspectiva de menor concorrência de rivais ocidentais. Além das falências nos Estados Unidos, empresas de energia solar na Alemanha, outra grande produtora, estão demitindo funcionários e apertando o cinto.

A recente força das ações das empresas chinesas “realmente reflete os baixos custos dos fabricantes de energia solar chineses, e é ótimo ver o posicionamento deles, particularmente em relação às empresas americanas e europeias do setor”, disse K. K. Chan, presidente-executivo da Nature Elements Capital, uma empresa chinesa de investimento em energia limpa, com sede em Pequim 

Ele atribuiu os baixos custos da indústria chinesa não à mão-de-obra barata na China – a fabricação de painéis solares de alta tecnologia não é intensiva em mão-de-obra –, mas sim aos terrenos gratuitos ou subsidiados pelos governos locais, grandes incentivos fiscais e outras assistências por parte do Estado.

Os preços dos painéis solares despencaram em 30% a 42% por quilowatt-hora no ano passado, devido ao aumento da capacidade de produção, particularmente na China. Enquanto isso, a demanda está um tanto fraca nos principais mercados nos Estados Unidos e na Europa.

Os custos de geração de eletricidade por instalações solares de escala comercial agora se aproximam dos custos da geração por gás natural em alguns mercados, como o da Califórnia, quando subsídios de até 30% do preço são incluídos. Mas os custos permanecem bem acima dos custos da eletricidade gerada por carvão.

Os Estados Unidos e a União Europeia tentaram aumentar a demanda por energia solar ao subsidiarem a compra de painéis solares. Mas cada vez mais esses subsídios estão sendo usados para compra de painéis solares da China.

O governo chinês adotou uma política diferente. Em vez de subsidiar a compra e uso da energia solar, a China se concentrou em aumentar a competitividade dos fabricantes do país. Como resultado, a China exporta 95% dos painéis solares que produz. O sindicato United Steelworkers impetrou uma queixa junto ao governo dos Estados Unidos, pedindo ao governo Obama que investigue os subsídios da China para energia limpa e outras políticas, para entrada de processo contra elas na Organização Mundial do Comércio (OMC). As regras da organização proíbem rigidamente subsídios à exportação, para impedir que os países comprem participação de mercado para seus produtores em mercados estrangeiros 

O governo contestou uma prática do governo chinês: subsídios de US$ 6,7 milhões e US$ 22,5 milhões para os fabricantes chineses de turbinas eólicas que concordassem em não comprar componentes importados.

A China concordou em junho em suspender a prática, mas àquela altura ela já tinha desenvolvido em cinco anos a maior indústria produtora de turbinas eólicas do mundo e agora conta com produtores altamente competitivos para quase todos os componentes.

Nkenge L. Harmon, uma porta-voz do escritório do representante de comércio dos Estados Unidos, disse na quinta-feira que a investigação da agência continuará sobre se as outras políticas de energia limpa chinesas violam as regras da OMC.