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07/02/2011 - 00h01

Um sueco com outro sobrenome; na verdade, muitos suecos

John Tagliabue
Em Estocolmo (Suécia)

Martin Cervall acredita que seu avô estava na vanguarda de uma tendência contemporânea na Suécia.

Atualmente, um número crescente de jovens suecos prestes a se casar não está apenas escolhendo utensílios de mesa, mas também escolhendo novos nomes. Às vezes é um nome de família mais velho; com maior frequência é um criado por eles mesmos.

O nome original de Sofia Wetterlund, 29 anos, era Sofia Joensson, e quando ela decidiu se casar no ano passado, ela e seu então noivo, Karl Andersson, estavam cansados de seus nomes. “Nós dois achávamos que Joensson e Andersson eram muito comuns”, ela disse. “Karl queria algo diferente, eu queria algo diferente. Nós apenas não queríamos ser confundidos com outros.”

O casal explorou o passado de suas famílias e Wetterlund foi descoberto, o nome de solteira da avó dela. “Nós o consideramos bonito e era bastante incomum”, ela disse.

Além disso, “Wetterlund” corria risco de extinção, pelo menos em sua família; apenas um parente ainda tinha o sobrenome. Então eles pediram permissão às autoridades do governo para se chamarem Wetterlund, e a permissão foi concedida.

Na maioria dos casos, os casais adotam o novo sobrenome pelos mesmos motivos dos Wetterlund: para se rebelaram contra a hegemonia dos sobrenomes tradicionais suecos que terminam em “-son” –Johansson, Andersson e Karlsson sendo os mais comuns. E não para aí. Dos 100 sobrenomes mais comuns aqui, 42 terminam em “-son”.

A Suécia está repleta de sobrenomes que terminam em “-son” por causa de um velho hábito nórdico, anterior à introdução dos sobrenomes hereditários, de uso do primeiro nome do pai e o sufixo “-son” para um filho, ou “-dotter” para filha.

Então Lars, filho de Karl, era batizado de Lars Karlsson; a filha Lisbet era batizada de Lisbet Karlsdotter, apesar de que ela perderia isso no casamento. (A prática ainda existe na Islândia.)

Enquanto alguns suecos como os Wetterlund reviram a história da família em busca de um novo nome, outros simplesmente inventam um. Alguns adotam nomes com um toque mediterrâneo, como Andriano e Bovino, disse Eva Brylla, a diretora de pesquisa do Instituto de Linguagem e Folclore, em Uppsala. Outros adotam nomes de sonoridade inglesa, como Swedenrose ou Flowerland; outros deixam a imaginação correr solta, simplesmente utilizando os blocos de construção comuns nos nomes suecos e desenvolvendo trava-línguas como Shirazimohager e Rowshanravan.

O governo, que precisa aprovar todas as mudanças de nome, deixa certos nomes fora dos limites. Marcas registradas, como Coke, estão de fora, assim como obscenidades. Nomes de nobreza, como Bernadotte, o nome de família do rei da Suécia, não são permitidos, nem nomes de celebridades. Obama também está fora dos limites, disse Jan Ekengren, diretor do Escritório de Registros e Patentes, que supervisiona a mudança de nomes. E Donadoni, o nome do astro de futebol italiano, também foi rejeitado.

Tudo isso soa familiar para Cervall, 44 anos, um consultor de administração, apesar da história de mudança de nome em sua família ter ocorrido há muito tempo. Seu avô paterno era Bertil Carlsson, e o irmão dele se chamava Vallentin Carlsson. Assim em 1927, os irmãos, querendo se livrar do “-son” e se sentindo criativos, pegaram as primeiras sílabas de Bertil e Vallentin para formar o sobrenome Bervall.

Mas como não soava muito bem, eles substituíram o B pelo C e ficaram com Cervall, e então receberam permissão para usá-lo como sobrenome.

Agora Martin e seus filhos são todos Cervall. Mas sua irmã se casou com um Olsson, e o filho deles, irritado com seu sobrenome, recebeu permissão aos 18 anos para também se chamar Cervall. “Ele queria ser diferente”, disse Cervall.

Brylla, do Instituto de Linguagem e Folclore, que é consultora do Escritório de Registros e Patentes, disse que a prática de mudar nomes já existe há mais de um século na Suécia, à medida que as pessoas passaram a buscar escapar de seus sobrenomes “-son”. Mas nos últimos anos o volume aumentou enormemente. Em parte, disse Brylla, isso se deve à nova legislação.

Segundo as velhas leis, apenas aqueles com sobrenomes terminados em “-son” ou com conotações embaraçosas podiam mudar seus nomes. Mas uma lei aprovada em 1982 permite a quase todos fazê-lo, por qualquer motivo.

“Desde 1982, o número de mudanças de nome tem crescido a cada ano”, disse Ekengren, o diretor do escritório de patentes. “O número dobrou desde 2002.”

No ano passado, foram 7.257 mudanças de nome, uma pequena queda em comparação a 2009, ele disse, provavelmente por causa da crise econômica e do aumento de 20% na taxa para mudança de nome, que agora é do equivalente a US$ 270.

“O motivo para a maioria das mudanças é o desejo de se destacar, de se individualizar”, disse Ekengren. “Olla Andersson conhece Eric Svensson e eles querem começar algo juntos.”

Foi basicamente o que aconteceu há uma década, quando Magnus Karlsson conheceu Anna Lindstedt e eles decidiram se casar. “Ela não queria Karlsson e eu não queria Lindstedt”, disse o ex-Karlsson, agora Magnus Pantzar. “Quando eu nasci, sete entre 10 pessoas tinham sobrenome ‘-son’.”

O casal pesquisou a história de suas famílias e encontrou o nome da avó materna de Karlsson, Pantzar. O casamento terminou em divórcio após 11 meses, mas o nome Pantzar ficou. “Eu meio que gosto do nome”, disse Pantzar, 43 anos. “As pessoas me conhecem como Pantzar.”

Mesmo assim, como alguns suecos, ele vê um possível aspecto negativo. Um de seus irmãos adotou o nome Winberg, enquanto outro, Thomas, manteve o sobrenome da família, Karlsson, então os três irmãos têm sobrenomes diferentes. “Thomas às vezes pisca para meu pai e diz: ‘Eu sou o filho que manteve seu nome’”, disse Pantzar.

Mas ele acrescentou: “Nesta era de globalização, nós precisamos manter nossas tradições. Neste aspecto, é bom ter nomes suecos”.

Outros não têm essas preocupações. Viggo Johansen, 44 anos, um administrador de ativos, manteve seu sobrenome, mas não tem objeções à prática de mudança de nomes. “Se você deseja criar algo novo, por que não?” ele disse. “Eu espero que a gente tenha mais cultura e história para depender do que apenas nossos nomes.”

De fato, o apoio aos nomes suecos está vindo de um lado inesperado. Nas últimas décadas, ondas sucessivas de imigrantes têm chegado à Suécia, e muitos fazem uso das leis e adotam nomes de sonoridade sueca para acelerar sua integração.

Ekengren lembrou de um caso há poucos anos, em que uma família imigrante pediu permissão para se chamar Mohammedsson.

“A permissão foi concedida”, ele disse.

Tradução: George El Khouri Andolfato