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30/01/2011 - 00h01

Clima estranho: EUA estão gelados, enquanto o Ártico está mais quente que o habitual

Justin Gillis

A julgar pelo clima, o mundo parece ter virado de cabeça para baixo.

Por dois invernos consecutivos, um frio ártico tomou conta da Europa, enterrando o continente em neve e gelo. No ano passado nos Estados Unidos, nevascas históricas afligiram a região do Meio-Atlântico. Neste inverno, o Sul tem suportado tempestades de neve e frio severo incomuns, e um Nordeste frígido está se preparando para aquela que poderá ser outra grande tempestade de neve nesta semana.

Mas enquanto as pessoas em Atlanta aprendem a remover neve com pá, o clima a 3.200 km ao norte tem sido estranhamente quente nos dois últimos invernos. Por todo o nordeste do Canadá e Groenlândia, as temperaturas em dezembro foram muitos graus acima do normal. As baías e lagos têm demorado a congelar; a pesca no gelo e rotas de caça e comércio foram afetadas.

Iqaluit, a capital do território canadense remoto de Nunavut, teve que cancelar seu desfile de motos de neve do Ano Novo. David Ell, o vice-prefeito, disse que as pessoas na região estão olhando com inveja para as cidades americanas e europeias cobertas de neve. “As pessoas estão dizendo: ‘É para lá que foi toda nossa neve!’”, ele disse.

A causa imediata do clima distorcido é clara. Um padrão de circulação atmosférica que tende a manter o ar frígido preso no Ártico enfraqueceu nos dois últimos invernos, permitindo que massas de ar frio descessem bem mais ao sul e massas de ar mais quente pudessem se deslocar para o norte.

A questão mais profunda é se este padrão está associado às rápida mudanças que o aquecimento global está causando no Ártico, particularmente a perda drástica de gelo no mar. Pelo menos dois cientistas climáticos proeminentes ofereceram teorias sugerindo que sim. Mas outros têm dúvidas, dizendo que os eventos recentes não são excepcionais, ou que mais evidência por um período mais longo é necessária para estabelecer um elo.

Desde que os satélites começaram o monitorá-lo em 1979, o gelo na superfície do Oceano Ártico, no mês de setembro, diminuiu em mais de 30%. É a mudança mais notável em um terreno do planeta nas últimas décadas, e uma grande pergunta é se está começando a afetar os padrões climáticos mais amplos.

O gelo reflete luz solar e os cientistas dizem que a perda de gelo está fazendo com que o Oceano Ártico absorva mais calor no verão. Um punhado de cientistas aponta este calor extra como possível culpado pelos invernos mais duros na Europa e nos Estados Unidos.

Suas teorias envolvem um rio veloz de ar chamado corrente de jato, que circula pelo Hemisfério Norte. Por muitos invernos a forte diferença de pressão entre a região polar e as latitudes médias canaliza a corrente de jato para um círculo apertado, ou vórtice, ao redor do Pólo Norte, contendo o ar frígido no topo do mundo.

“É como uma cerca”, disse Michelle L’Heureux, uma pesquisadora de Camp Springs, Maryland, da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA).

Quando a diferença de pressões diminui, a corrente de jato enfraquece e desvia para o sul, levando o ar quente para o Ártico e o ar frio para as latitudes médias –exatamente o que tem acontecido nos dois últimos invernos. O efeito é às vezes comparado a deixar aberta a porta do refrigerador, com o ar frio vazando para a cozinha, enquanto o ar quente entra no refrigerador.

Isso tem acontecido de modo intermitente há muitas décadas. Ainda assim, é incomum o vórtice polar enfraquecer tanto quanto tem ocorrido ultimamente. No inverno passado, um índice ligado ao vórtice atingiu seu valor mais baixo no meio do inverno desde que começou a ser registrado em 1865, e esteve bem baixo de novo em dezembro.

James E. Overland, um cientista climático da NOAA em Seattle, propôs que o calor extra no Oceano Ártico poderia estar aquecendo a atmosfera o suficiente para deixá-la menos densa, fazendo com que a pressão do ar sobre o Ártico se torne mais próxima daquela das latitudes médias. “O calor adicional trabalha contra um forte vórtice polar”, ele disse.

Mas Overland reconhece que sua ideia é experimental e precisa de mais pesquisa. Muitos outros cientistas climáticos não estão convencidos, dizendo que um período de dois anos, apesar de incomum, é muito pouco para basear uma nova teoria. “Nós não temos discernimento suficiente para fazer afirmações definitivas”, disse Kevin Trenberth, chefe de análise climática do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, em Boulder, Colorado.

Judah Cohen, diretor de previsão sazonal de uma empresa chamada Atmospheric and Environmental Research, em Lexington, Massachusetts, encontrou o que acredita ser um elo entre o aumento da neve na Sibéria e o enfraquecimento do vórtice polar. Em sua teoria, a neve extra está criando uma massa de ar frio densa sobre o norte da Ásia no final do outono, provocando uma cadeia complexa de causa e efeito que no final perturba o vórtice.

Cohen disse em uma entrevista que o aumento da neve siberiana poderia, por sua vez, estar ligado ao declínio do gelo do mar ártico, com a água aberta fornecendo umidade adicional à atmosfera –assim como os Grandes Lagos produzem neves pesadas em cidades como Buffalo e Syracuse.

Ele está publicando previsões sazonais com base em seu trabalho, com apoio da Fundação Nacional de Ciência. Essas previsões previram com acerto os recentes invernos duros nas latitudes médias. Mas Cohen reconhece, assim como Overland, que algumas de suas ideias são experimentais e precisam de mais pesquisa.

A incerteza em relação ao que está causando os invernos estranhos acentua a dificuldade central da ciência climática. Apesar da maioria dos pesquisadores estar certa que os gases do efeito estufa, causados pelos seres humanos, estão aquecendo a Terra, eles reconhecem que é mais complicado tentar prever os efeitos regionais dessa mudança. É totalmente possível, eles dizem, que algumas regiões esfriem temporariamente, por causa da perturbação na circulação atmosférica e oceânica, enquanto a Terra se aquece de modo geral.

Blogueiros especializados em levantar dúvidas sobre a ciência climática apontam alegremente para os recentes invernos nos Estados Unidos e Europa, como evidência de que os climatologistas estão errados a respeito da tendência de aquecimento. Esses comentaristas não têm se mostrado tão dispostos a escrever sobre o aquecimento estranho em partes do Ártico, uma região que os cientistas há muito preveem que aquecerá mais rapidamente do que o planeta como um todo.

Sem dúvida, o clima de inverno do início e fim de 2010 foi notável. Duas das 10 maiores tempestades de neve da história de Nova York ocorreram no ano passado, incluindo a que perturbou as viagens logo após o Natal. As duas tempestades de neve que caíram em Washington e arredores no espaço de uma semana em fevereiro foram sem precedentes em seu impacto geral na região, com um total de acúmulos de 1,02 metro em alguns lugares.

Mas os invernos não são toda a história. Mesmo sem eles, 2010 entraria como um dos anos mais estranhos nos anais da climatologia, graças em parte ao fenômeno meteorológico conhecido como El Niño, que transferiu calor do Oceano Pacífico para a atmosfera no início do ano. Posteriormente, a superfície do oceano esfriou, um fenômeno conhecido como La Niña, contribuindo para chuvas pesadas em muitos lugares.

Apesar do esfriamento do La Niña, dados recém-compilados mostram que 2010 foi um dos anos mais quentes no registro histórico. Houve uma fortíssima onda de calor na Rússia, recordes de temperatura alta em pelo menos 17 países, e enchentes devastadoras no Paquistão, China, Austrália, Estados Unidos e outros países.

“Foi um ano selvagem”, disse Christopher C. Burt, um historiador climático do Weather Underground, um site de Internet.

Ainda assim, por mais errático que o clima possa se tornar, não está óbvio para a maioria das pessoas como o aquecimento global pode levar a invernos mais frios. Muitos cientistas hesitam em apoiar essas afirmações, ao menos até terem um melhor entendimento sobre o que se passa no Ártico.

Em entrevistas, vários cientistas lembraram que na década encerrada em meados dos anos 90, o vórtice polar parecia estar se fortalecendo, e não enfraquecendo, provocando invernos brandos no leste dos Estados Unidos e oeste da Europa.

Na época, alguns cientistas climáticos escreveram artigos atribuindo essa mudança ao aquecimento global. Jornais, incluindo o “New York Times”, publicaram lamentos pelo inverno perdido. Mas logo depois a aparente tendência desapareceu, uma experiência que deixou muitos pesquisadores mais cautelosos.

John M. Wallace, um cientista atmosférico da Universidade de Washington, escreveu alguns dos artigos iniciais. Desta vez, ele disse, será necessário muito mais evidência para convencê-lo de que alguns poucos invernos duros em Londres e Washington estão ligados ao aquecimento global.

“Assim que publicamos algo e parece que você está vendo uma ligação”, disse Wallace, “a natureza encontra um modo de nos humilhar”.

Tradução: George El Khouri Andolfato