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31/12/2011 - 00h01

No norte da Colômbia, projeto alia pecuária e floresta tropical

Marie Delcas
Enviada especial a Zapayan (Colômbia)

Um projeto de 6 mil hectares de reflorestamento associa proprietários de gado e madeireiros

Stefan Tschampel contempla suas plantações de teca e suas vacas que pastam à sombra das árvores. Criador de gado colombiano, ele sonha em ver toda a costa caribenha colombiana reflorestada: “Os sete departamentos da região têm todos o mesmo clima. A mão de obra aqui é abundante. E os investidores querem vir para cá.” Ao seu lado, o conde Andreas von Faber-Castell, proprietário da empresa de mesmo nome, concorda: “Eu vendo lápis e preciso de madeira”.

Os dois homens são investidores do Projeto de Reflorestamento Comercial (PRC), lançado no fim dos anos 1990 nas planícies de Magdalena, ao sul do grande porto de Barranquilla. A região de criação extensiva estava na época sob o jugo das milícias paramilitares.

Proprietário de três fazendas e de vários milhares de hectares, Tschampel pede aconselhamento à Agência Nacional das Florestas (ONF, sigla em francês) francês. “A ideia era propor um modelo de reflorestamento sustentável tanto do ponto de vista ecológico quanto comercial, associando grandes e pequenos proprietários”, resume Sylvain Léonard, da ONF. Hoje, 106 criadores da região participam do PRC.

A primeira etapa era reduzir o número de hectares necessários para o gado, ao fracionar os pastos para garantir a rotação dos rebanhos. “Era preciso permitir que os criadores se engajassem em um projeto de reflorestamento sem comprometer suas rendas a curto prazo”, explica Sylvain Léonard. “Na Colômbia, a média nacional é de um animal por hectare”, afirma, por sua vez, Stefan Tschampel. “Eu coloco cinco”. E suas vacas são gordas.

Segunda etapa: plantar. Quase 6 mil hectares foram reflorestados com gmelina, ceiba, carvalho, eucalipto e teca. Última etapa: vender. A gmelina, que fornece uma madeira branca de boa qualidade – perfeita para o lápis - , atinge a maturidade em doze anos. Importada da Indonésia, a teca exige trinta anos.

A Faber-Castell vende 2 bilhões de lápis por ano. “Enfileirados, é o suficiente para dar oito voltas em torno da Terra”, explica o folheto da empresa alemã que, em 250 anos, nunca saiu das mãos da família. Preocupada em garantir seu abastecimento em matéria-prima, a Faber-Castell comprou 10 mil hectares de terras no Brasil, explica Sandra Suppa, diretora de comunicação da empresa. “Mas continuamos a comprar madeira de fornecedores externos, por razões de qualidade e de preço”. Há três anos, a Faber-Castell se envolveu no projeto primeiramente como compradora, e depois como sócia.

O PCR, que, no começo, teve o apoio financeiro do poder público colombiano e a cooperação francesa, se tornou rentável. Ao lado da receita obtida com a venda da madeira, ele também poderá lucrar com a venda de “créditos de carbono” associados ao sequestro de CO2.

“Um bom negócio”

Em setembro, a Convenção das Nações Unidas sobre o Clima de fato registrou o projeto como parte do MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). Esse dispositivo permite que atores – privados ou públicos dos países desenvolvidos – financiem nos países em desenvolvimento projetos que contribuam para a redução das emissões de gases de efeito estufa. Em troca, eles recebem créditos que podem revender ou utilizar para reduzir sua própria pegada de carbono. Como as plantações já têm dez anos, o PCR deverá ser o primeiro programa MDL a emitir certificados de carbono florestal. Nos próximos trinta anos, o projeto deverá gerar 3,6 milhões de créditos. Um crédito se vende hoje entre US$3 e US$5 [R$5,6 a R$ 9,3]; “O reflorestamento se tornou um bom negócio e isso é uma boa notícia, tanto para o país quanto para o planeta”, resume o engenheiro florestal Edison Gutierrez.

No ritmo atual de desmatamento, a Colômbia terá perdido todas suas florestas daqui a 100 ou 150 anos, afirmam especialistas. “O país ainda dispõe de imensos recursos florestais. Mas eles são mal administrados”, acredita Jean-Guénolé Cornet, diretor da filial andina da ONF-International. Segundo ele, a melhora das condições de segurança só pode favorecer o reflorestamento. “Um cultivador só planta árvores se ele tiver certeza que daqui a vinte anos sua terra ainda lhe pertencerá”, ele explica.

Para Tschampel, o reflorestamento é uma condição da segurança. “A criação extensiva emprega 15 trabalhadores para 1.000 hectares, o reflorestamento exige cinco vezes mais. Depois, o desenvolvimento da indústria da madeira permitirá que se desenvolvam outras atividades”, ele explica. O vilarejo vizinho de Zapayan já possui cinco marceneiros. “O que estão esperando para investir pesado no reflorestamento?”, pergunta Tschampel às autoridades locais. “Que voltem os fuzis?”