UOL Menu
Busca
Notícias

28/08/2014 - 00h06 / Atualizada 28/08/2014 - 00h06

O que o rei Salomão e David Lee Roth, vocalista do Van Halen, têm em comum?

Freakonomics
Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

O que o rei Salomão e David Lee Roth têm em comum? Em um episódio recente de nosso podcast "Freakonomics Radio", a equipe Freakonomics decidiu descobrir. Por que, você poderia perguntar, nós estaríamos interessados nas semelhanças –sejam elas quais forem– entre o governante bíblico de Israel e o vocalista da platinada banda de rock dos anos 80, o Van Halen? Tudo tem a ver com nosso fascínio pela teoria de jogos e as formas como as pessoas podem usá-la, como diz Steven Levitt, "para fazer os bandidos se apresentarem e dizer quem são". Confuso? Bem, continue lendo.

Como descobrimos, Roth e Salomão na verdade têm muito em comum –ou pelo menos mais do que você poderia esperar. Primeiro, ambos são judeus. Aparentemente, Roth aprendeu a cantar enquanto se preparava para seu bar mitzvah. E ambos fizeram bastante sucesso com as garotas. A Bíblia nota que Salomão teve "700 esposas, princesas e 300 concubinas", enquanto Roth, por sua vez, alega ter "dormido com toda garota bonita com duas pernas", até mesmo com uma amputada.

Mais surpreendente é que tanto Roth quanto Salomão escreveram letras para uma canção popular que chegou ao primeiro lugar nas paradas. Roth escreveu as letras da maioria das canções do Van Halen, incluindo a guiada por sintetizadores "Jump", que chegou ao primeiro lugar na parada Hot 100 da Billboard em 1984 (a primeira e única música da banda a chegar ao topo da parada, por incrível que pareça). No caso de Salomão, acredita-se amplamente que o rei tenha escrito o "Eclesiastes", entre outros livros bíblicos, e milhares de anos depois, o cantor folk Pete Seeger transformou algumas das palavras do rei ("To everything, turn, turn, turn/ There is a season, turn, turn, turn") na canção "Turn! Turn! Turn!" Quando os Byrds gravaram sua versão em 1965, ela chegou ao primeiro lugar nas paradas.

Assim, nós estabelecemos que David Lee Roth e o rei Salomão são ambos judeus, ambos adoram garotas e ambos são compositores de sucesso. Ótimo. Mas e quanto ao lance da teoria de jogos?

Após conversarmos com alguns estudiosos da Bíblia (David Sperling, do Hebrew Union College, e Joseph Telushkin, autor de numerosos livros sobre o pensamento e cultura judaicos, incluindo "Jewish Literacy") e algumas pessoas que trabalharam em turnês do Van Halen, nós descobrimos que tanto Roth quanto Salomão gostavam de enganar as pessoas para fazê-las revelarem sua verdadeira natureza –fazendo os mentirosos, trapaceiros e ineptos se apresentarem. É um truque que Levitt e Stephen Dubner chamam de "ensinar seu jardim a eliminar suas próprias ervas daninhas" no novo livro deles, "Think Like a Freak".

Como Salomão fazia isso na Israel antiga? A Bíblia conta a famosa história das duas mulheres que procuraram o rei com um bebê –e um grande problema: as mulheres, que viviam juntas, tinham cada uma um bebê aproximadamente da mesma idade. Certa noite, uma das mulheres rolou durante seu sono e sufocou seu próprio bebê que dormia ao seu lado. Agora, diante de Salomão, a mulher alega que não foi o filho dela que ela matou acidentalmente, e que o bebê segurado pela outra mulher é de fato o dela. A outra mulher, é claro, nega.

O que o rei faz? O inteligente Salomão decide criar o que os economistas chamam de "equilíbrio separador", um truque que revelaria fácil e rapidamente a verdadeira mãe do bebê. Ele pede por sua espada, prometendo cortar o bebê ao meio. Uma mulher grita: "Não faça isso! Você matará o bebê!" A outra responde: "Não, pode cortar o bebê". E, de repente, Salomão sabe quem é a verdadeira mãe do bebê: apenas uma mulher cruel o bastante para permitir que o bebê fosse cortado roubaria uma criança. O rei Salomão, nas palavras de Dubner, "armou uma armadilha que encorajou culpada e inocente a se apresentarem".

Avance alguns milênios e Roth está fazendo basicamente a mesma coisa. No início dos anos 80, o Van Halen estava no topo do mundo, vendendo milhões de discos e apresentando um dos maiores e mais exagerados shows no mercado, com imenso aparato de áudio e efeitos de luz. "Havia dois nomes que você, como sujeito da casa, não queria que realmente viessem", disse Steve Lemon, um montador da equipe de produção do Van Halen, para Dubner. "Um, é claro, era o Kiss, e outro era o Van Halen. Porque esse pessoal sempre trazia os maiores shows. Eles representavam um desafio para você e sua equipe local."

O problema de ter tanto equipamento no palco é que se a equipe não montasse tudo perfeitamente, poderia ser perigoso para os artistas. Uma torre de luz poderia cair sobre Roth ou sobre o guitarrista Eddie Van Halen; o palco poderia desmoronar com tanto peso. E, de fato, o Van Halen frequentemente encontrava problemas durante suas apresentações ao vivo, porque os promotores de eventos não seguiam as instruções detalhadas na apostila de 53 páginas que acompanhava o contrato.

Então Roth inventou um pequeno truque para assegurar que os promotores estavam levando as exigências do Van Halen a sério. Além de todas as especificações técnicas na apostila, havia uma longa lista de comes e bebes que a banda exigia na estrada: Fruit Loops, ovos cozidos, donuts, pretzels, brócolis (sim, o Van Halen comia seus vegetais), iogurte Danone e, é claro, uísque, cerveja, vinho, além de outras coisas. Ao lado do item M&Ms, a banda inseriu uma nota em letras maiúsculas: "AVISO: EXCETO OS QUE FOREM MARRONS".

Não se tratava de uma excentricidade de astro do rock. Como Roth explicou em um vídeo de 2012, isso visava assegurar que os promotores tinham lido a apostila na íntegra: "Se eu chegasse nos bastidores, sendo um dos autores do projeto de luz e palco, e visse M&Ms marrons na mesa de catering, então isso garantia que o promotor não leu a apostila do contrato e precisávamos fazer uma checagem séria item por item, porque frequentemente tínhamos questões de risco".

Roth, assim como o rei Salomão, sabia como montar armadilhas para os bandidos, a ensinar seu jardim a eliminar suas próprias ervas daninhas.

É claro, pode haver alguns danos colaterais no caminho. Mike Peden trabalhou para um promotor de concertos em Syracuse, Nova York, no início dos anos 80, e contou para Dubner uma história sobre sua irmã Donna, que era responsável pelo catering do show do Van Halen de 1982 na cidade –um trabalho que ela nunca esqueceu: "Minha irmã saiu e comprou, eu acho, três ou quatro pacotes de M&Ms, e se sentou ali com luvas de borracha para remover todos os marrons. E não ficou contente em fazer isso. Ela odeia M&Ms e até hoje não os come por causa disso".

Veja Álbum de fotos