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21/12/2011 - 02h18 / Atualizada 21/12/2011 - 02h18

Disputas internas não impedem atuação da oposição ao Kremlin na Rússia

Charles Clover

Os planos para um grande comício anti-Kremlin em Moscou, na Véspera de Natal, estão ganhando força, com dezenas de milhares indicando sua intenção de participar, enquanto a oposição busca manter o embalo, após as eleições parlamentares que muitos consideraram fraudulentas.

Mas enquanto seu apoio cresce em sites de redes sociais como o Facebook – onde 30 mil pessoas se registraram para comparecer no comício de sábado até a noite passada – também aumentam as brigas entre os líderes da oposição.

O Kremlin parece estar ativamente incitando a discórdia, em um esforço para torpedear os protestos, com uma campanha para desacreditar a liderança da oposição.

A manifestação de sábado será um indicador chave sobre se o movimento está ganhando ou perdendo força e será julgado com base em se conseguirá atrair mais pessoas do que em 10 de dezembro, quando 50 mil se reuniram para protestar contra o regime de Vladimir Putin, o primeiro-ministro, e exigir novas eleições.

O principal nome da oposição – Alexei Navalny, um blogueiro detido após os primeiros protestos e que deveria ser solto ontem– agora parece estar disputando abertamente com Boris Nemtsov, um ex-vice-primeiro-ministro, as rédeas do movimento.

“Há um confronto fermentando entre Nemtsov, que representa a velha liderança da oposição, e novos líderes como Navalny”, disse Sergei Markov, vice-reitor da universidade Plekhanov de economia, em Moscou.

Nemtsov também caiu vítima de um aparente truque sujo de campanha inspirado no Kremlin. Ele foi forçado na terça-feira a pedir publicamente desculpas a Yevgenia Chirikova, outra líder da oposição, e à blogueira Bozhena Rinska, por comentários ofensivos feitos por ele contra as duas em recentes conversas privadas ao telefone. As gravações foram postadas em um site de Internet amigo do Kremlin.

Ele e Chirikova apareceram juntos em um canal de televisão pela Internet, “TV Rain”, para mostrar união após o escândalo. “Yevgenia e eu decidimos cerrar fileiras e avançarmos na direção da meta comum”, disse Nemtsov, que disse que suas palavras foram “um erro” – com Chirikova parecendo vagamente conciliadora ao seu lado.

Lyudmila Alexeeva, uma dissidente soviética veterana e líder do grupo de direitos humanos Moscow Helsinki Group, disse que as brigas a fizeram recordar do movimento secreto de oposição na velha União Soviética.

“É uma infelicidade que Nemtsov tenha se permitido falar aquelas palavras, mas lhes dar publicidade é ainda pior”, ela disse. “Na minha época, quando alguém sugeria que a KGB estava tentando provocar discórdia entre nós, eu sempre dizia: ‘Quem precisa da KGB, nós já brigamos o suficiente sem ela’.”

O site que publicou as gravações, Lifenews.ru, se recusou na terça-feira a comentar como as obteve, apesar de poucos duvidarem que o Serviço Federal de Segurança, o sucessor da KGB, esteja envolvido.

“Quem mais monitoraria o telefone de Nemtsov?” perguntou Yevgenia Albats, editora-chefe da “Novos Tempos”, uma revista semanal favorável à oposição. “Ou Nemtsov é suspeito de terrorismo ou há algo muito errado com os serviços de segurança.”

As esperanças de que o movimento de protesto encontre apoio dentro dos partidos de oposição no Parlamento foram eliminadas no domingo, quando Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista, o segundo maior partido na Duma da Rússia, condenou os protestos como sendo inspirados pelos “revolucionários laranja” estrangeiros. Ele se referia aos protestos que levaram os revolucionários pró-Ocidente ao poder na Ucrânia em 2004.

Mas as tentativas de isolar e dividir a oposição saíram terrivelmente pela culatra, disse Albats. “O Kremlin está usando as mesmas táticas que usa há 10 anos. Mas ele não percebe que este agora é um país diferente.”

Um ex-alto funcionário do Kremlin, que pediu para permanecer anônimo, fez uma avaliação semelhante a respeito da incompetência do Kremlin em uma entrevista para o “Financial Times”. “Eles realmente estão jogando muito mal. Não está claro se estão ajudando a oposição ou a prejudicando.”

Em um programa de televisão na última quinta-feira, Putin, o principal alvo da ira dos manifestantes, não mediu esforços para insultar os manifestantes, os tratando como uma quinta coluna traidora, financiada por estrangeiros, em vez de um movimento local com queixas legítimas.

Ele os acusou de serem pagos pelo governo americano e disse que confundiu as fitas brancas usadas pelos manifestantes com “preservativos”.

“O Kremlin está fazendo tudo o que pode para provocar a fúria da oposição. Ele está fazendo tudo o que pode para consolidar os manifestantes”, disse Lilia Shevtsova, analista política do Moscow Carnegie Center, o centro de estudos.