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25/05/2013 - 00h01 / Atualizada 25/05/2013 - 00h01

Aliança do Pacífico se consolida como novo motor latino-americano

Miguel González
Enviado especial a Cáli (Colômbia)

Os presidentes reunidos na quinta-feira (23) no clube de golfe de Cáli não usavam gravata. O protocolo da 7ª Cúpula da Aliança do Pacífico queria refletir o espírito de uma iniciativa que se apresenta como "pragmática" e "dinâmica", distante dos preconceitos ideológicos e da burocracia paralisante.

Nas palavras de seu anfitrião, o colombiano Juan Manuel Santos, trata-se do processo de integração regional mais importante da América Latina e "novo motor" de seu desenvolvimento e crescimento.

Em menos de três anos de vida, o mecanismo de integração comercial criado por Peru, Chile, Colômbia e México se consolidou. A prova de sua pujança está nos participantes em Cáli: além dos presidentes dos quatro sócios --Santos (Colômbia), Sebastián Piñera (Chile), Ollanta Humala (Peru) e Enrique Peña Nieto (México)--, os de dois candidatos a entrar no clube --Laura Chinchilla (Costa Rica) e Otto Pérez Molina (Guatemala)-- e os primeiros-ministros de dois países observadores --o espanhol Mariano Rajoy e o canadense Stephen Harper--, além de delegações da Austrália, da Nova Zelândia, do Japão e do Uruguai.

O acordo fundamental da Aliança do Pacífico --assinado em junho do ano passado em Cerro Paranal (Chile)-- prevê a eliminação de 90% das tarifas alfandegárias entre os membros, assim como a progressiva supressão de vistos, para criar uma zona de livre circulação de mercadorias, serviços, pessoas e capitais em uma região de 200 milhões de pessoas que representa mais de um terço do PIB da América Latina e mais de 50% de seu comércio.

Santos, que assume a presidência rotativa da aliança, salientou que esta se baseia em um conjunto de valores e crenças compartilhadas: a vigência do Estado de direito e a separação de poderes, a cordialidade do livre comércio, o respeito à propriedade privada, o fomento ao investimento estrangeiro ou à concorrência. "Mas nenhum desses princípios tem valor se não se traduzirem em bem-estar, emprego e qualidade de vida para nossos cidadãos", advertiu Santos.

Seus promotores afirmam que estão abertos a todos e não vão "contra ninguém"; mas é evidente sua contraposição a outros processos de integração regionais; e não só o eixo bolivariano. A ruptura do Pacto Andino --dois de seus membros, Colômbia e Peru, subscreveram acordos de associação unilaterais com a EU-- e a entrada da Venezuela no Mercosul --que acentua as tendências protecionistas desse bloco-- deixaram o campo livre para a aliança, que nasce com a vocação de servir de ponte com os mercados da Ásia-Pacífico, os de maior crescimento neste século.

Diante das expropriações de empresas espanholas na Argentina ou na Bolívia, os sócios se apresentam como os defensores da segurança jurídica e os que mais atraem investimento estrangeiro.

Não é por acaso que, em paralelo à cúpula, se desenrola um encontro com 400 empresários de 14 países; entre eles, diretores das 50 maiores empresas da América Latina e de firmas espanholas. Diante deles, Rajoy lembrou que o investimento espanhol nos países da aliança supera 45 bilhões de euros, enquanto o inverso soma 20 bilhões, mas ainda há um "enorme potencial" para crescer. Por isso, convidou as chamadas multilatinas a utilizar a Espanha como cabeça de praia para o desembarque na Europa.

Sem mencionar quem --inclusive em seu próprio partido-- critica sua política econômica, como o ex-primeiro-ministro espanhol Aznar, admitiu que as medidas adotadas pelo governo estão ficando "muito caras, especialmente em termos de emprego, mas esse processo duro e complicado, que não é agradável, está assentando as bases para um crescimento muito sólido", e por isso seguirá a mesma linha. E, ainda na sexta-feira, anunciou que o Conselho de Ministros aprovaria a Lei de Empreendedores, que representará "um apoio muito claro à internacionalização" das empresas.

Embora estivesse em Cáli só por 24 horas, durante as quais se reuniu com Peña Nieto e Harper, Rajoy não quis perder a ocasião de ser o único líder europeu convidado à cúpula, enquanto outros países da UE (como Portugal e França) já batem à sua porta. A ausência mais significativa na lista dos que aspiram a ser observadores é a do Brasil, que, segundo fontes diplomáticas, "não parece à vontade em nenhum fórum onde não segure a batuta". Ninguém pareceu sentir falta da maior potência regional, que em 2012 cresceu raquítico 1%, enquanto os parceiros da aliança o faziam entre 3,9 e 6,3%.