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28/09/2012 - 00h00 / Atualizada 14/04/2015 - 19h03

Aquecimento global aliado à crise econômica causou prejuízo de R$ 2,03 trilhões em 2010

Emilio de Benito
Em Madri (Espanha)

O aquecimento global e a crise econômica, com seu modelo de desenvolvimento baseado nos combustíveis fósseis, não são fenômenos independentes. E se cada um deles tem efeitos econômicos e em vidas humanas alarmantes, a combinação de suas consequências é ainda mais devastadora: US$ 1 trilhão (R$ 2,03 trilhões) em prejuízos já em 2010, com cinco milhões de mortes, segundo o Monitor de Vulnerabilidade Climática que a Fundação Dara apresentou em Nova York, aproveitando a Assembleia Geral da ONU. E a inatividade (ou a pouca vontade para agir, pelo menos) indica que esses desastres vão aumentar: 817 mil vidas a mais e 3% do PIB mundial em 2030 se perderão pelo que chamam, para sintetizar ambos os aspectos, de crise climática, segundo o documento, encomendado por um grupo de 20 países - como Bangladesh, Gana ou Vietnã - dos mais prejudicados pelo aquecimento. A Espanha não está entre os promotores do documento, mas aparece como um dos lugares mais afetados pela seca.

"Os dados são os maiores vistos até agora, mas isso é porque somos os primeiros a estudar ambos os fenômenos ao mesmo tempo", explicou ao "El País" o principal autor do trabalho, Matthew MacKinnon, de Nova York. "Quente e poluído são duas faces da mesma moeda. Nós combinamos os estudos econômicos com os últimos dados sobre mudança climática, e nos concentramos em algumas áreas muito concretas", explica.

O trabalho mede o efeito em dólares e de vidas (direta ou indiretamente afetadas) de 34 indicadores, desde as inundações e deslizamentos de terra devidos à variação das condições climáticas (3.500 vidas e 73,3 bilhões de euros em perdas em 2030) até os problemas de saúde causados pela poluição devida ao uso de combustíveis derivados do carbono (petróleo, carvão e gás), com 2,1 milhões de mortes.

Entre os novos indicadores, MacKinnon destaca a medição da "mudança de produtividade". "Com mais calor e mais dias quentes, as pessoas que trabalham ao ar livre ou em ambientes que não têm temperatura regulada - e são muitos - vão produzir menos." "Também haverá uma mudança para modelos de economia mais industrializados." "Em troca, os números de mortalidade são só 20% superiores aos da Organização Mundial da Saúde (OMS), porque se devem sobretudo à poluição", acrescenta.

O relatório, que também envolveram pesquisas de campo na África e na Ásia, foi revisado por mais de 50 cientistas, economistas e especialistas em políticas públicas de primeiro nível, incluindo chefes de governo. Entre eles estão os espanhóis Teresa Ribera, ex-secretária de Estado para o Clima, e Javier Solana, ministro de Felipe González e ex-alto representante para Política Externa da União Européia.

Em sua dupla vertente, o estudo mede o impacto atual e a previsão em curto prazo. "As perdas para os países mais pobres já são enormes", explica. Para os países mais pobres (alguns dos mais vulneráveis tanto por sua localização - equatoriais ou tropicais, ilhas ameaçadas pelo aumento do nível dos oceanos - como por sua falta de recursos para impor medidas e sua necessidade de um desenvolvimento em curto prazo, embora isso represente não tomar medidas preventivas já), esses fatores já custam 7% do PIB, diz o trabalho. E chegará "a 11% do PIB em média no ano de 2030".

Mas não é só uma questão de ricos e pobres. O tamanho também não é garantia. Em termos absolutos, parece o contrário. China, Índia e EUA, por exemplo, aparecem indicados como lugares especialmente problemáticos em muitos capítulos. "As principais economias mundiais se veem igualmente afetadas: em menos de 20 anos a China suportará a maior parte das perdas, com mais de 920 bilhões de euros (R$ 2,41 trilhões); a economia dos EUA verá seu crescimento freado em 2% do PIB; a freada na Índia, por sua vez, superará 5% de seu PIB", afirma o trabalho. Em conjunto, 250 milhões de pessoas terão problemas devido à elevação do nível do mar; 30 milhões devido ao clima extremo, sobretudo as inundações; 25 milhões pela fusão do permafrost - nome dado ao subsolo permanentemente congelado do Ártico -, que deixará solos instáveis e pantanosos; e 5 milhões pela desertificação.

No estudo pormenorizado de cada capítulo, a Espanha é citada uma vez: é o quinto país que mais perderá por causa da seca. "Embora o peso da agricultura seja só de 3%, contra 30% que podem ter países menos desenvolvidos, está em uma zona muito vulnerável, o sul da Europa", acrescenta MacKinnon. Concretamente, o estudo afirma que os prejuízos por esta causa podem ser de 154 milhões de euros (R$ 403 milhões) a 500 milhões de euros (R$ 1,3 bilhões) em 2030.

Esse panorama afeta a todos em geral de uma maneira negativa. Há alguma exceção, como Egito, Bahrein, Jordânia, Luxemburgo, Malta e Suíça, que são os únicos para os quais se prevê um impacto global baixo para o conjunto dos fatores; para a Espanha se vaticina um impacto entre baixo, pelo clima, e médio, pela poluição.

A solução é investir em políticas de renovação energética e assumir reduções das emissões. "As perdas econômicas minimizam os custos de enfrentar a mudança climática: a redução de emissões contrairia o crescimento do PIB em apenas 0,5% na próxima década; por sua vez, a ajuda requerida pelos países mais vulneráveis rondaria os 116 bilhões (R$ 303 bilhões) de euros por ano", indica o trabalho.

"O monitor mostra como a falta de ação já causou danos sem precedentes na economia mundial e ameaça a vida humana em todo o mundo. Com o investimento necessário para resolver a mudança climática já muito abaixo dos custos estimados da inação, não há dúvida de que este é o caminho que vale a pena percorrer", disse José María Figueres, ex-presidente da Costa Rica e um dos membros do patronato do Dara.

Não se salvam nem grandes nem pequenos

Quase ninguém escapa dos efeitos combinados de aquecimento e poluição, se é que se pode estabelecer uma divisão. Mas o relatório "Monitor de Vulnerabilidade Climática" destaca o impacto em três gigantes: China, Índia e EUA. Curiosamente, três países que se negaram até agora a impor limites a suas emissões.

A China, prestes a se transformar na maior economia do planeta (já é a que emite mais gases do efeito estufa), está entre as pior situadas. Se não fizer nada para reduzir a poluição, arrisca 4,5% de seu PIB, assim como a Rússia. A Índia chega a 11%, segundo o documento. Por exemplo, a China seria economicamente o país mais afetado pela mudança climática, seguida de Índia, México, Indonésia e Tailândia. Também o é na lista de prejudicados pela poluição, seguida de EUA, Brasil, Índia e Indonésia. E lidera a de países com mais vítimas mortais por esta causa, à frente de Índia, Paquistão, Indonésia e Nigéria. Unicamente não figura na lista de mortes por aquecimento, que é encabeçada pela Índia.

Mas não só os grandes são prejudicados. O relatório foi feito a pedido de cerca de 20 países (Afeganistão, Bangladesh, Butão, Costa Rica, Etiópia, Gana, Quênia, Kiribati, Madagascar, Maldivas, Nepal, Filipinas, Ruanda, Santa Lucia, Tanzânia, Timor Oriental, Tuvalu, Vanuatu e Vietnã). Eles mesmos se definem como alguns dos mais afetados pela inatividade para conter o impacto combinado de crise e aquecimento. Por exemplo, destacam vários Estados insulares do Pacífico e do Índico, que poderão simplesmente desaparecer.

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