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19/07/2011 - 00h01

Presidente da Guiné Equatorial constrói cidades de luxo às custas da população

Em Madri (Espanha)
Álvaro de Cózar

Sipopo não é mais uma pequena aldeia com casas baixas encravada na selva tropical, a nordeste da ilha de Bioko, na Guiné Equatorial. Em seu lugar, dez empresas estrangeiras levantaram em menos de dois anos o capricho imaginado pelo presidente Teodoro Obiang: uma cidade africana que pareça europeia. Há um hotel de luxo, dois centros de conferências, 52 chalés para chefes de Estado, um hospital, um campo de golfe, uma praia privada e uma rodovia iluminada de 16 quilômetros e três pistas para chegar lá.

O sonho de Obiang é uma vitrine de edifícios de vidro construídos expressamente para receber a cúpula da União Africana, realizada há 15 dias. Como presidente da organização, queria mostrar-se diante dos líderes dos 52 países africanos como o poderoso mandatário de um país pequeno mas cheio de petróleo. A nova cidade custou mais de 580 milhões de euros, e as autoridades afirmaram que o complexo de 300 hectares será transformado agora em uma área turística de luxo que permitirá diversificar a economia do país.

Mas o lugar é inacessível para a maior parte dos guineenses, que só podem chegar até ali em companhia de diplomatas estrangeiros. Chamam-na de "cidade proibida". "Consegui entrar há pouco tempo, convidado por um diplomata. É um lugar luxuoso, mas não tem ninguém lá agora. Nem um gato. E as luzes da estrada não funcionam mais. Como tudo isso vai se manter se não dão vistos para os turistas visitarem o país?", diz Wenceslao Mansogo, médico, vereador na cidade de Bata e membro do principal partido de oposição, Convergência para a Democracia Social, com um único assento dos cem do Parlamento.

Sipopo não é o único lugar onde o ditador guineense, que governa a antiga colônia espanhola desde o golpe de Estado de 1979, decidiu expandir seu afã urbanístico. Nos últimos anos, Obiang também embarcou na ampliação de Malabo, construiu um mausoléu em Bata e ampliou os limites do Palácio África, sua residência na mesma cidade, obrigando muitas pessoas a procurar outro lugar para viver. Um deles é o próprio Mansogo, que nestes dias visitou Madri para denunciar as políticas do governo de Obiang.

Em 18 de junho de 2007, Mansogo soube que Obiang havia percorrido a pé a margem do rio Ekuku, no limite do Palácio África, enquanto indicava para seu séquito várias áreas de terreno ocupadas por famílias. Em um desses terrenos ficava a casa de Mansogo e sua família. No dia seguinte as escavadeiras estavam lá para começar seu trabalho. Armado de um machado, o médico conseguiu tirá-las de sua terra, mas pouco depois as máquinas voltaram, desta vez com agentes de polícia. "Eu tinha os documentos de propriedade e denunciei o fato, mas não serviu de nada neste país sem justiça", relata Mansogo.

A construção de palácios presidenciais se estendeu por toda a Guiné Equatorial. Além do de Bata, Obiang mandou levantar novas residências em Luba, Malabo II, Moka e Mongomo. O novo sonho do ditador é construir uma nova capital para o país em Oyala, uma cidade no meio da selva, na parte continental da Guiné Equatorial. O projeto é semiclandestino, e embora todo mundo saiba de sua existência não aparece nos orçamentos gerais nem é anunciado no site do governo.

"A população está excluída desses projetos", indica um advogado guineense que prefere não dar seu nome. "Estão gastando muito dinheiro em coisas que não beneficiam um país tão pobre como este." Os números macroeconômicos da Guiné Equatorial são enganosos. A renda per capita foi de US$ 34.843 em 2010, um pouco mais alta que a da Espanha, segundo o Banco Mundial. O dado só serve para demonstrar as fortes desigualdades em um país onde mais de 60% população vivem com menos de US$ 1 por dia.

Obiang insiste que seus investimentos trarão benefícios ao país, rejeita as críticas por considerá-las contrárias ao progresso e tenta aparecer diante do resto do mundo como um homem que quer modernizar a África. A cidade custou 580 milhões de euros, cerca de 12 vezes o orçamento dedicado à saúde e educação juntos em 2011.